REVISITANDO ‘L´AFRIQUE NOIRE EST MAL PARTIE’ DE RENE DUMONT: TERÃO CABO VERDE E S. VICENTE TAMBÉM PARTIDO MAL?

As movimentações recentes do Movimento Corda Monte Cara levaram-me a questionar o que terá corrido mal na nossa sociedade mindelense nos últimos 40 anos, as responsabilidades de cada um e das elites dominantes e as alternativas à actual situação.

Pesquisando referências sobre a obra de René Dumont “L´Afrique noire est mal partie’ deparei-me com o artigo do guineense, Leopoldo Amado, ‘Revisitar 44 anos depois o "l' Afrique est mal partie", de René Dumont’. Lembrei-me então dos inúmeros artigos publicados no Terra Nova nos anos 80, pelo Frei Fidalgo, Luiz Silva e pelo saudoso intelectual português Alfredo Margarido. Os dois últimos articulistas frequentemente citavam, René Dumont (falecido em 2001, era engenheiro agrónomo e intelectual francês de esquerda, um estudioso das independências africanas e crítico acérrimo dos regimes instalados em África desde então). Nunca é pouco lembrar o papel destes 3 articulistas no despertar das consciências mindelenses e caboverdeanas em relação ao regime de partido único implantado e da necessidade da instauração de um regime democrático em Cabo Verde.

Sobre René Dumont1, Leopoldo Amado2 diz ‘’….Quando a África independente ainda tinha percorrido apenas alguns metros, o francês René Dumont escreveu o livro intitulado “L´Afrique est mal partie” (Éditions du Seuil, 1962). Nele, apesar de Dumont não considerar a África um continente maldito, demonstra como o clima, a demografia e sobretudo a pesada herança colonial figuram insidiosamente como constrangimentos que obstaculizam o desenvolvimento...’ Mais a frente escreve ‘….No entanto, perante o “boom” das independências africanas e num momento em que o emergente socialismo africano parecia ganhar adeptos dentre as várias correntes ideológicas da África em efervescência nacionalista, Dumond, como experimentado homem da tradicional esquerda francesa, alertou, desde essa altura, de que nem sempre as independências eram sinónimas da descolonização, criticando inclusivamente o novo-riquismo das elites africanas que paradoxalmente advogavam o socialismo africano, desenvolvendo Dumond uma autêntica “plaidoyer” em prol de uma política de educação africana adaptada às realidades locais e uma desenvolvimento económico e social que privilegiasse a massa camponesa (para ele, a vanguarda da revolução que se consumaria com a independência económica)...‘’

Este artigo de Leopoldo Amado traz de novo à luz um livro cuja actualidade é surpreendente, e muito pertinente no contexto actual das ex-colónias portuguesas.

As elites africanas defraudaram, de uma maneira geral, as expectativas dos seus povos potenciadas nas independências nacionais.

No caso concreto de Cabo Verde e de S. Vicente, em particular, o grito de revolta expresso na recente manifestação do movimento Cordá Monte Cara, com as palavras de ordem ‘ Traídos pela Câmara’ ‘Abandonados pelo Governo’ é também uma expressão dessa revolta ‘africana’, tendo em conta o conjunto de expectativas criadas à população mindelense com a independência. Face às promessas do PAIGC, e às perspectivas de um futuro radiante, os mindelenses aderiram em massa ao projecto da independência, viabilizando assim este projecto e assegurando a este partido o poder total em Cabo Verde, a partir de Julho de 1975. A vitória não foi todavia fácil, culminou de um processo de luta renhida travada entre os partidários de uma independência associação com Portugal, protagonizada pela UDC, o partido da terceira via, a UPIC, e a ala esquerda para a independência total e imediata e a Unidade Guiné Cabo-Verde, corporizada pelo PAIGC, todo este processo decorrendo no Mindelo.

A história de S. Vicente e de Mindelo, embora muito mais recente do que as restante ilhas, é uma história com alguns desencontros com a própria História. Os ingleses, patrões e construtores da ilha, trouxeram à cidade e ao país uma nova maneira de estar no mundo: o modernismo e as tecnologias da época, a cultura, a civilidade, o ‘’fair play’’, o inconformismo e uma sensação de emprego e prosperidade duradoura. Todavia este estado foi de pouca duração, cerca de um século, entrecortado pelos sobressaltos e humores da antiga Metrópole. A ascensão do Estado Novo em Portugal teve implicações danosas para S. Vicente, embora algumas políticas tenham sido reajustadas, tendo em conta o inconformismo mindelense, corporizado por figuras proeminente como o Senador Vera Cruz, Adriano Duarte Silva, Baltazar Lopes etc. As independências africanas e o fim do império britânico selaram o início da decadência do Mindelo.

Mas é a proclamação da independência, que paradoxalmente, corresponde ao autêntico desencontro da cidade com a marcha da história e do desenvolvimento. A cidade congelou-se pura e simplesmente no tempo e no espaço, tornou-se num vestígio turístico de cidade colonial, abandonada, mal amada, estigmatizada ideologicamente pelo seu passado de ‘colaboração’ colonial. Os temores do comunismo provocaram em 1974 a debandada para o estrangeiro da burguesia dita colonial e de um sem número de competências e o fim da expectativa do mito do retorno dos cérebros caboverdeanos exilados. Para piorar a situação, a machadada final veio das necessidades da criação de uma capital de raiz na cidade da Praia. Este mega-pólo urbano absorveu de maneira irracional todas as competências e energias existentes em S. Vicente e Cabo Verde. De uma cidade viva, dinâmica e com um peso determinante na economia caboverdeana, Mindelo transformou-se num espectro, na sombra daquilo que ela foi. Não obstante as resistências e os expedientes e truques para fintar o sistema económico e as políticas do partido único, que o mindelense sempre soube inventar, mesmo no tempo colonial, o colapso da economia mindelense estava assim programado. ‘Decapitada’ a sua inteligentzia, sem perspectivas e num ambiente de partido único e de economia planificada, a ilha afundou-se inexoravelmente na decadência económica, estando actualmente num plano inclinado de decadência moral, social e cultural.

Muitos actualmente acusam os mindelenses e as suas elites residentes pelo estado actual da ilha. Todavia, se nos remetermos de novo aos escritos de René Dumond nos apercebemos que os problemas que defronta S. Vicente decorrem, no essencial, das constatações gerais deste intelectual para a África, e se ele estivesse vivo concluiria “Mindelo, aussi est mal partie”. Segundo Dumond ‘’As dificuldade da África resultam sobretudo da falta de quadros competentes e honestos, em quantidade suficiente. Fraca ou insuficiente preparação poderia, em certa medida, ser compensada por posturas de integridade, e vice-versa: mas para as duas deficiências em simultâneo, não há remédio possível… ‘’. ’’Os militantes dos partidos no poder em África não se aperceberam ou não quiseram se aperceber do seu papel essencial da educação cívica da sociedade, da criação de um clima de gosto ao trabalho, o «mito » da realização do programa do país. Os países precisavam de pessoas idealistas, militantes devotos, e não carreiristas preocupados com migalhas e benesses do poder, através de eleições, em ambiente de caricatura da democracia».’

É, portanto, a conjunção de vários factores, fuga das elites, políticas desajustadas para a ilha e para Cabo-Verde, formação e formatação desajustada de elites para o desenvolvimento, gerando assim elites não preparados para os desafios do país, os principais responsáveis pelo estado actual de S. Vicente. As causas são assim estruturais e inerentes à própria experiência e dinâmica de uma sociedade africana, não podendo assim ser atribuídas exclusivamente a cidadãos ou a um grupo isolado. Paradoxalmente, são os mais ferrenhos militantes partidários, os primeiros a lavar as mãos, aqueles que atribuem as culpas da situação aos próprios mindelenses, que a história de certeza absolverá. Independentemente das filiações, políticas ou partidárias, o ónus da situação actual tem que ser atribuída às políticas iniciadas pelo partido PAIGC-CV em 1974, continuadas pelo MPD e prosseguidas de novo por aquele partido. Uma cidade com a estrutura do Mindelo está vocacionada para os serviços, precisa de um clima de liberdade para se realizar e desenvolver. Pedir que os mindelenses tivessem iniciativas em regime centralizado e planificado ou colectivizado de partido único, é perguntar a um preso se pode optar pela liberdade. Pedir iniciativas e investimentos, nas conjunturas vigentes na ilha e no país, tanto actualmente como nos últimos 20 anos de democracia, a cidadãos manietados, sem poder económico ou financeiro e num quadro hostil ao investimento, é incentivar o endividamento irresponsavelmente, o que não é sério. Também culpar a propensão dos mindelenses à festa, à preguiça ou ao ócio, numa ilha que sofre de desemprego crónico, é insultuoso. Desmente este raciocínio primário, o número de cidadãos honestos e trabalhadores mindelenses que contribuem para o progresso dos países onde residem.

Num contexto económico e financeiro que se anuncia desfavorável, Cabo Verde, fora da quadro de protectorado económico da comunidade internacional, aparece e parece de novo quase como país inviável, sem alternativas credíveis, uma batata quente para quem o irá governar. Existem alternativas às actuais políticas e ao ‘Pensé Unique’ que vigora em Cabo Verde? Ouvi falar de plano Marshal para a ilha de S. Vicente. Na realidade antes de falar em dinheiros e ministérios para S. Vicente é preciso repensar Cabo Verde, do ponto de vista da sua organização política, económica, social e geo-estratégica. Se René Dumond estivesse vivo, de certeza recomendaria o seguinte ‘Il vous faut un nouveau départ’. Mas como, e com quem? Com as mesmas elites estagnadas e que não se reciclaram? Este é o busílis da situação, é o problema africano de Cabo Verde, tão bem identificado por Dumond. As sociedades mindelense e caboverdeana estão completamente bloqueadas em termos de ideias e projectos. Mindelo defronta problemas graves e espelha todas as dificuldades, dores e contradições do país, Cabo-Verde. Por outro lado, quanto mais se espreme os discursos eleitorais e os programas dos partidos, menos ideias saem para a S. Vicente e Cabo Verde. Por isso, torna-se necessário que os cidadãos se organizem em fóruns e movimentos cívicos para pressionarem os políticos a apresentarem alternativas às políticas actuais e a aceitarem propostas da sociedade civil. A solução para S. Vicente e Cabo Verde exige repensar Cabo Verde, estados gerais, um ‘brainstorm’ associando toda a sociedade. É preciso uma ideia e um conceito novo para a Cabo Verde e S. Vicente 2. Vai ser necessário a Re-Organização Administrativa e Política de Cabo Verde, não revisões constitucionais para inglês ver, que forçosamente vai mexer com interesses instalados de ‘lobbies’ diversos, as rotinas estabelecidas dos políticos e das elites. Mas é vital para o futuro de Cabo Verde e S. Vicente. A paz, o progresso e o bem-estar do país e de S. Vicente exigem sacrifícios de todos. Este artigo terá continuação proximamente, antes das eleições, com a minha visão de futuro e algumas pistas para Mindelo e Cabo Verde do Século XXI.


José Fortes Lopes

José Fortes Lopes
 


Referências:

1- René Dumont, L'Afrique noire est mal partie. 1962. 1962 Editions du Seuil,

2- Leopoldo Amado, Revisitar 44 anos depois o "l' Afrique est mal partie", de René Dumond. 22 -06- 2006. http://guineidade.blogs.sapo.pt/5647.html

3- José Fortes Lopes, É preciso uma ideia e um conceito novo para a cidade do Mindelo. 10-03-2010, Liberal Online.


Comentário:

Calma, muita calma, porque você também nao se reciclou. Eu sou um daqueles que partiu e que nao quer regressar porque precisamente nao houve reciclagem, mesmo daqueles que como você criticam aqueles que pensam lhes ficar atras.A sua tese está correcta mas paradoxalmente nao tem pés para andar proque também você nao se reciclou. Porquê? Porque cita SOCIALISTAS que deram cabo disto tudo. O PAIGC era socialista e comunista. Dumond também, que cita mesmo os camponeses como força de vanguarda. Parece Lenine ou Mao Tsé Tung; outra falha da sua tese é decalcar a tese de Dumond para Cabo Verde. Dumond nao conhecia Cabo Verde e o mundo lusofono. Ele era francês e para o francês Africa, é Africa francofona. Cabo Verde nao existe para um intelectual francês. Alias, Alfredo Margarido viveu e estudou muitos anos em França e ele também era um socialista. Conclusao: essa mania que a gente tem de copiar tudo nos outros e naqueles que nao merecem contirubuiu também para a morte de Soncente. Leopoldo é tambezm um socialista guineense e Luiz Silva é também um socialista que foi aluno de ALfredo e continua a viver na sombra do partido socialista frances. Portanto, veja la se continua a fazer pesquisas na Net porque eu mesmo ja escrevi muito material diagnosticando e traçand a estratégia para Soncente. Um estrat"gia que também Baltazar e a UDC queriam para Cabo Verde. Foi o PAIGCV que deu cabo de Soncente e de Cbao Verde. Ha que recuar ao pré-74, quer dizer votar na UCID que é filha da UDC....

 

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